quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Lágrima - Viviane Mosé

A maioria das doenças
Que as pessoas têm
São poemas presos
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
Lágrima é dor derretida.


Democracia - Fernando Sabino

Democracia é oportunizar a todos
o mesmo ponto de partida.
Quanto ao ponto de chegada,
depende de cada um.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Da felicidade - Mário Quintana

Quantas vezes a gente, em busca de aventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Amizade - Gibran K Gibran

O amigo é a resposta aos teus desejos.
Mas não o procures para matar o tempo!
Procura-o sempre para as horas vivas.
Porque ele deve preencher a tua necessidade,
mas não o teu vazio.

Desabafo - Florbela Espanca

Estou hoje num dos meus dias cinzentos, como diz nosso escritor;
dia em que tudo é baço e pesado como a cinza,
dia em que tudo tem a cor uniforme e nevoente dele,
desse cinza em que eu às vezes sinto afundar o meu destino.
Estou triste e vagamente parva, hoje, e, no entanto, estou na capital do Alentejo;
aos meus ouvidos chega o ruído dos automóveis,
o barulho cadenciado das patas dos cavalos de luxo,
o pregão forte e sensual que é toda a alma de mulher do povo, e por cima disto tudo,
a espalhar vida, luz, harmonia, sinto o sol, um sol de fogo,
o sol do meu Alentejo sensual e forte como um árabe de vinte anos! Pois tudo me irrita!
Que direito tem o sol para se rir hoje tanto?
Donde vem o brilho que Deus pôs, como um dom do céu,
nos olhos das costureirinhas que passam?
Donde vem a névoa de mágoa que eu trago sempre nos meus?!
Vê?... É o dia pesado,
o dia em que eu sou infinitamente impertinente e má como uma velhota de oitenta anos.
Eu odeio os felizes, sabes?
Odeio-os do fundo da minha alma,
tenho por eles o desprezo e o horror que se tem por um réptil que dorme sossegadamente.
Eu não sou feliz mas nem ao menos sei dizer porquê.
Nasci num berço de rendas rodeada de afectos,
cresci despreocupada e feliz, rindo de tudo, contente da vida que não conhecia,
e de repente, amiga, ao alvorecer dos meus 16 anos,
compreendi muita coisa que até ali não tinha compreendido
e parece-me que desde esse instante cá dentro se fez noite.
Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e,
como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos,
despedaçou-se o meu para sempre.
Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me,
dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade,
que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje.
Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor;
falta-me tudo o que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era...
É a história da minha tristeza.
História banal como quase toda a história dos tristes.

Eu - Florbela Espanca

"Sou talvez a visão que alguém sonhou
Alguém que veio ao mundo prá me ver
E que nunca na vida me encontrou..."

Vida - Florbela Espanca

A vida é sempre a mesma para todos:
rede de ilusões e desenganos.
O quadro é único,
a moldura é que é diferente.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os girassóis e nós - Pe. Fabio de Melo

Eles são submissos. Mas não há sofrimento nesta submissão.
A sabedoria vegetal os conduz a uma forma de seguimento surpreendente.
Fidelidade incondicional que os determina no mundo, mas sem escravizá-los.
A lógica é simples. Não há conflito naquele que está no lugar certo, fazendo o que deveria.
É regra da vida que não passa pela força do argumento, nem tampouco no aprendizado dos livros. É força natural que conduz o caule, ordenando e determinando que a rosa realize o giro, toda vez que mudar a direção do Regente.
Estão mergulhados numa forma de saber milenar, regra que a criação fez questão de deixar na memória da espécie. Eles não podem sobreviver sem a força que os ilumina.
Por isso, estão entregues aos intermitentes e místicos movimentos de procura.
Eles giram e querem o sol. Eles são girassóis.
Deles me aproximo. Penso no meu destino de ser humano.
Penso no quanto eu também sou necessitado de voltar-me para uma força regente, absoluta, determinante. Preciso de Deus. Se para Ele não me volto corro o risco de me desprender de minha possibilidade de ser feliz. É Nele que meu sentido está todo contido.
Ele resguarda o infinito de tudo o que ainda posso ser. Descubro maravilhado.
Mas no finito que me envolve posso descobrir o desafio de antecipar no tempo,
o que Nele já está realizado.
Então intuo. Deus me dá aos poucos, em partes, dia a dia, em fragmentos.
Eu Dele me recebo, assim como o girassol se recebe do sol,
porque não pode sobreviver sem sua luz.
A flor condensa, ainda que de forma limitada, porque é criatura,
o todo de sua natureza que o sol potencializa.
O mesmo é comigo. O mesmo é com você.
Deus é nosso sol, e nós não poderíamos chegar a ser quem somos, em essência,
se Nele não colocarmos a direção dos nossos olhos.
Cada vez que o nosso olhar se desvia de sua regência, incorremos no risco de fazer ser o nosso sol, o que na verdade não passa de luz artificial.
Substituição desastrosa que chamamos de idolatria.
Uma força humana colocada no lugar de Deus.
A vida é o lugar da Revelação divina.
É na força da história que descobrimos os rastros do Sagrado.
Não há nenhum problema em descobrir nas realidades humanas algumas escadarias que possam nos ajudar a chegar ao céu.
Mas não podemos pensar que a escadaria é o lugar definitivo de nossa busca.
Parar os nossos olhos no humano que nos fala sobre Deus é o mesmo que distribuir fragmentos de pólvora pelos cômodos de nossa morada.
Um risco que não podemos correr.
Tudo o que é humano é frágil, temporário, limitado. Não é ele que pode nos salvar.
Ele é apenas um condutor.
É depois dele que podemos encontrar o que verdadeiramente importa.
Ele, o fundamento de tudo o que nos faz ser o que somos.
Ele, o Criador de toda realidade. Deus trino, onipotente, fonte de toda luz.
Sejamos como os girassóis...
Uma coisa é certa. Nós estamos todos num mesmo campo.
Há em cada um de nós uma essência que nos orienta para o verdadeiro lugar que precisamos chegar, mas nem sempre realizamos o movimento da procura pela luz.
Sejamos afeitos a este movimento místico, natural.
Não prenda os seus olhos no oposto de sua felicidade.
Não queira o engano dos artifícios que insistem em distrair a nossa percepção.
Não podemos substituir o essencial pelo acidental.
É a nossa realização que está em jogo.
Girassol só pode ser feliz se para o Sol estiver orientado.
É por isso que eles não perdem tempo com as sombras.
Eles já sabem, mas nós precisamos aprender.

Construir um Nós - Lya Luft

"Construir um ser humano, um nós,
é um trabalho que não dá férias nem concede descanso:
haverá paredes frágeis, cálculos malfeitos, rachaduras.
Quem sabe um pedaço que vai desabar?
Mas se abrirão também janelas para a paisagem
e varandas para o sol"

sábado, 3 de outubro de 2009

De que são feitos os dias ? - Cecília Meirelles

De pequenos desejos, vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades, inatuais esperanças.
De loucuras, de crime,
de pecados,de glórias,
do medo que encadeia todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces e em sinistras alianças.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Triste realidade - Alice Ruiz

Era uma vez uma mulher
que via um futuro grandioso
em cada homem que a tocava.
Um dia ela se tocou.

O assunto "amor" é sempre cafonérrimo - Martha Medeiros

Quem é que nunca teve um Rodrigo, um Marcelo, um Felipe, um Rafael?
Ou um... tudo bem, pode ser uma Roberta, uma Juliana, uma Daniele ou uma Patrícia... Paquerar é bom, mas chega uma hora que cansa!
Cansa na hora que você percebe que ter 10 pessoas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter nenhuma, e ter apenas uma, é o mesmo quer possuir 10 ao mesmo tempo!
A "fila" anda, a coleção de "figurinhas" cresce, a conta de telefone é sempre altíssima...
Mas e aí? O que isso te acrescenta? Nessas horas sempre surge aquela tradicional perguntinha: "Por que aquela pessoa pela qual você trocaria qualquer programa por um simples filme com pipoca abraçadinho no sofá da sala não despenca logo na sua vida?"
Se o tal "amor" é impontual e imprevisível, que se dane!
Não adianta: as pessoas são impacientes! São e sempre vão ser! Tem gente que diz que não é... "Eu não sou ansioso, as coisas acontecem quando tem que acontecer."
M-E-N-T-I-R-A! Por dentro todo ser humano é igual: impaciente, sonhador, iludido...
Jura de pé junto que não, mas vive sempre em busca da famosa cara metade.
Pode dar o nome que quiser: amor, alma gêmea, par perfeito, a outra metade da laranja...
No fim dá tudo no mesmo. Pode soar brega, cafona, piegas... Mas é a realidade.
Inclusive o assunto "amor" é sempre cafonérrimo.
Acredito que o status de cafona surgiu porque a grande maioria das pessoas nunca teve a oportunidade de viver um grande amor.
Poucas pessoas experimentaram nesta vida a sensação de sonhar acordada,
de dormir do lado do telefone, de ter os olhos brilhando,
de desfilar com aquele sorriso de borboleta azul estampado no rosto...
Não lembro se foi o "Wando" ou se foi o "Reginaldo Rossi" que disse em uma entrevista que se a Marisa Monte não tivesse optado pelo "Amor I love you"
e que se o Caetano não tivesse dito "Tô me sentindo muito sozinho..."
eles não venderiam mais nenhum disco. Não adianta, o público gosta e vibra com o "brega".
Não adianta tapar o sol com a peneira.
Por mais que você não admita:
você ficou triste porque o Leonardo di Caprio morreu em "Titanic"
e ficou feliz porque a Julia Roberts e o Richard Gere acabaram juntos em "Uma Linda Mulher".
Existe pelo menos uma música sertaneja ou um "pagodinho" que te deixe com dor de cotovelo. Você sabe a letra de pelo menos uma das músicas de "Sandy e Júnior",
nem que seja para cantar com a música de fundo.
Quando você está solteiro e vê um casal aos beijos e abraços no meio da rua você sente a maior inveja. Você já se pegou escrevendo o seu nome e o da pessoa pelo qual você está apaixonada no espelho embassado do banheiro, ou num pedacinho de papel.
Você já se viu cantando o mantra "Toca, telefone, toca" em alguma das sextas feiras de sua vida, ou qualquer outro dia que seja.
Você já enfiou os pés pelas mãos alguma vez na vida e se atirou de cabeça numa "relação"
sem nem perceber que você mal conhecia a outra pessoa e que com este seu jeito de agir ela te acharia um tremendo louco.
Você, assim como nos contos de fada, sonha em escutar um dia o tal
"E foram felizes para sempre" e adora quando passa na TV aqueles comerciais de margarina,
a là Doriana, no maior estilo "super família feliz" durante o intervalo das novelas...
Bem, preciso continuar? Ok, acho que não...
Mas, assim como você,
eu também me nego a confessar qualquer uma das situações descritas acima,
até porque, nós, mulheres, não somos mulheres de ficar sonhando acordada,
ou paradas esperando a vida passar.
E, todOOOOs nós, morremos mas não perdemos a pose, certo?!?!"

Precipitação - José Saramago

"A melhor maneira de fazer morrer uma rosa
é abri-la à força
quando ainda não passa
de uma pequena promessa de botão."


In A Caverna

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Saudade - Mia Couto

"A saudade é uma tatuagem na alma.
Só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós."

Eu na tua vida - Clara Vasconcellos

"Eu revirei tuas páginas
até encontrar as palavras
que falavam de mim.
Desencapei teu livro
em busca de uma dedicatória
qualquer
em vão:
só havia silêncios.
Reli todas as notas
do autor
e do revisor.
Não havia respostas.
Não havia entrelinhas.
Procurei nos índices e nos anexos.
Nada.
No livro desbotado e amarelecido de tua vida
nenhuma palavra sobre mim."

Entrega - Clarice Lispector

"É que não sei entregar-me às correntezas das emoções
e se o faço me afogo e me perco e me morro."

Medo e desejo - Clarice Lispector

O medo sempre me guiou para o que eu quero.
E porque eu quero, temo.
Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou
O medo me leva ao perigo.
E tudo o que eu amo é arriscado.

Sensibilidade - Clarice Lispector

"...Sabe o que eu quero de verdade?!
Jamais perder a sensibilidade,
mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma.
Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma..."

Amizade sem trato - Martha Medeiros

Dei pra me emocionar cada vez que falo dos amigos.
Deve ser a idade, dizem que a gente fica mais sentimental.
Mas é fato: quando penso no que tenho de mais valioso,
os amigos aparecem em pé de igualdade com o resto da família.
E quando ouço pessoas dizendo que amigo, mas amigo meeeesmo, a gente só tem dois ou três, empino o peito e fico até meio besta de tanto orgulho:
eu tenho muito mais do que dois ou três. São uma cambada.
Não é privilégio meu, qualquer pessoa poderia ter tantos assim, mas quem se dedica?
Fulano é meu amigo, Sicrana é minha amiga. É nada. São conhecidos.
Gente que cumprimentamos na rua, falamos rapidamente numa festa,
de repente sabemos até de uma fofoca sobre eles, mas amigos? Nem perto.
Alguns até chegaram a ser, mas não são mais por absoluta falta de cuidado de ambas as partes. Amizade não é só empatia, é cultivo. Exige tempo, disposição.
E o mais importante: o carinho não precisa - nem deve - vir acompanhado de um motivo.
As pessoas se falam basicamente nos aniversários, no Natal ou para pedir um favor
- tem que haver alguma razão prática ou festiva para fazer contato.
Pois para saber a diferença entre um amigo ocasional e um amigo de verdade,
basta tirar a razão de cena. Você não precisa de uma razão. Basta sentir a falta da pessoa.
E, estando juntos, tratarem-se bem. Difícil exemplificar o que é tratar bem.
Se são amigos mesmo, não precisam nem falar, podem caminhar lado a lado em silêncio.
Não é preciso trocar elogios constantes, podem até pegar no pé um do outro, delicadamente.
Não é preciso manifestações constantes de carinho, podem dizer verdades duras,
às vezes elas são necessárias. Mas há sempre algo sublime no ar entre dois amigos de verdade. Talvez respeito seja a palavra. Afeto, certamente. Cumplicidade? Mais do que cumplicidade. Sintonia?Acho que é amor. Só mesmo amando para você confiar a ele o seu próprio inferno.
E para não invejarem as vitórias um do outro. Por amor, você empresta suas coisas, dá o seu tempo, é honesto nas suas respostas, cuida para não ofender, abraça causas que não são suas, entra numas roubadas, compreende alguns sumiços - mas liga quando o sumiço é exagerado. Tudo isso é amizade com trato. Se amigos assim entraram na sua vida,
não deixe que sumam. Porém, a maioria das pessoas não só deixa
como contribui para que os amigos evaporem. Ignora os mecanismos de manutenção.
Acha que amizade é algo que vem pronto e que é da sua natureza ser constante,
sem precisar que a gente dê uma mãozinha.
E aí um dia abrimos a mãozinha e não conseguimos contar nos dedos nem dois amigos pra valer. E ainda argumentamos que a solidão é um sintoma destes dias de hoje, tão emergenciais,
tão individualistas.
Nada disso.
A solidão é apenas um sintoma do nosso descaso.

A sua história - Caio F. Abreu

"A história que está sendo contada,
cada um a transforma em outra,
na história que quiser.
Escolha, entre todas elas,
aquela que seu coração mais gostar,
e persiga-a até o fim do mundo.
Mesmo que ninguém compreenda,
como se fosse um combate.
Um bom combate,
o melhor de todos,
o único que vale a pena."