UMA COLETÂNEA DE PENSAMENTOS É UMA FARMÁCIA MORAL ONDE SE ENCONTRAM REMÉDIOS PARA TODOS OS MALES - Voltaire
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Adiamento - Fernando Pessoa
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de Domingo divertia-se toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de Domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é o que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã..
O porvir...
Sim, o porvir..
Amor, meu grande amor - Angela Ro Ro e Ana Terra
Amor, meu grande amorNão chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras...
Me veja nos seus olhos
Na minha cara lavada
Me venha sem saber
Se sou fogo
Ou se sou água...
Amor, meu grande amor
Me chegue assim
Bem de repente
Sem nome ou sobrenome
Sem sentir
O que não sente...
Pois tudo o que ofereço
É, meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim, até o começo...
Amor, meu grande amor
Só dure o tempo que mereça
E quando me quiser
Que seja de qualquer maneira...
Enquanto me tiver
Que eu seja
O último e o primeiro
E quando eu te encontrar
Meu grande amor
Me reconheça...
sábado, 28 de novembro de 2009
Sentir os segundos - Frederico Moccia
“Que estranho quando não estamos distraídos,quando não temos tanta pressa,
quando conseguimos parar.
E sorrir. E compreender. E fechar os olhos.
E sentir até os segundos que passam por nós.
E saber vivê-los até o fim.
E saboreá-los com um sorriso,
com uma preocupação,
com uma esperança,
com uma vontade,
com clareza,
com qualquer coisa.
Mas saboreá-los…”
in "Desculpa se eu te chamo de amor"
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Apenas mais uma de amor - Lulu Santos e Nelson Motta
Eu gosto tanto de vocêQue até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido
Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor obrigação de acontecer
Eu acho tão bonito isso
De ser abstrato baby
A beleza é mesmo tão fugaz
É uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer
Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então,
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer
Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber
P.S. - Recebi essa canção por msn hj, apaixonante....
A mulher - Florbela Espanca
Ó Mulher!Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
Foto: Frida Khalo
A vida - Florbela Espanca
É vão o amor, o ódio, ou o desdém;Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!
Todos somos no mundo" Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!
A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...
Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!
Lágrimas Ocultas - Florbela Espanca
Se me ponho a cismar em outras erasEm que rí e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi outras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Passado, presente e futuro - José Saramago
Passado, Presente, Futuro Eu fui.Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.
Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.
Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.
in "Os Poemas Possíveis"
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Cadeira de balanço no lugar do Divã - Carpinejar
Certos amigos e amigas já usaram esse recurso cênico para explicar uma carência ou pontuar uma tristeza ancestral: - É que não fui amamentado quando nasci. Não suporto manha de mercado, muito menos crise infantil na meia-idade. Minha vontade é buscar um litro de leite e derramar num prato de sopa.
- Toma, toma até o fim! Criança gosta de drama, adulto gosta de transformar o drama em trauma. É sempre uma desculpa lá atrás para fundamentar uma preguiça e esclarecer um vício. As sutilezas, os detalhes, a normalidade, a rotina são esquecidos. Buscamos somente o estilete no estojo de madeira de nossa infância. Aquilo que corta. Deixamos os lápis coloridos sem nenhum uso. E olha que estavam apontados na última vez que os vi, em novembro de 1984. Psicologizamos em demasiado a memória, a ponto de somente lembrar o que tem impacto. Nossas dores nos tornam reacionários.
O verdadeiro revolucionário é o que ultrapassa sua dor e mexe na alegria.
Tanto que não entendo como os terapeutas continuam usando o mesmo mobiliário de Freud:
o divã, o abajur, a escrivaninha, a estante com livros. Igualzinho ao escritório do médico austríaco do princípio do século passado. Não há um decorador na psicologia? Velho por velho, por que não colocar uma cadeira de balanço? Não troco a cadeira de balanço pelo divã. Com o ritmo e o balanço, falarei bem mais do que deitado. Cadeira de balanço é feita para amamentação. Minha mãe me acolheu em seu trançado de vime. Guardo até hoje em minha casa. Serviu aos meus filhos, servirá aos meus netos. Adequada para cólicas e para os choros. Deveria ser enquadrada como um brinquedo, constar na praça ao lado do gira-gira e do escorregador. Tem um andamento precioso de charrete. Criança não dorme mais fácil no carro? Cadeira de balanço é movimento enternecido, um pedalinho dos ventos.
Mas voltando ao início: o que me irrita na lamúria de quem não foi amamentado é que ninguém evoca a mãe. A mãe é apagada dos problemas. Desculpa, a mãe torna-se o problema. É ela é que não amamentou. Parece que fez de propósito, careceu de vontade, de ânimo, de persistência. Nas campanhas de saúde e prevenção, escuta-se a obrigatoriedade de dar o leite para seu filho. É claro que toda mãe quer. Algumas não podem. E quem pensa nelas? São menos mães?
A maternidade sofre nos meses iniciais em seguida ao parto. Recebe nas costas uma pressão social maior do que o casamento e o baile de debutantes juntos. Depois de superar a apreensão se a criança nascerá bem, arca com a ansiedade do primeiro aleitamento. Subirá leite? Terá condições de alimentar o bebê? Ela é normal? Ao fracassar, é como se a criança a recusasse.
Uma frustração seca. Sem raízes.
Na falta de leite materno, ofereça o colo para sua mãe. É ela que precisa.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Voltar atrás... - Ally Carter
É esse o mundo que eu escolheria se pudesse voltar atrás—ser ignorante, bem-aventurada e feliz—
se eu pudesse viver uma vida de cerquinhas de madeira branca
em uma rua de cerquinhas de madeira branca
e não saber dos fatos desagradáveis,
isso teria que ser feito em lugares que a maioria das pessoas não podia encontrar em um mapa? Eu não sabia.
Talvez eu pudesse se minha mente fosse como aquele quadros de traço mágico
e eu pudesse chacoalhar e apagar tudo que sabia.
Mas eu estou muito dentro agora.
Eu sei o que acontece na noite,
e sei como combater.
in Gallager Girls I
Palavras - José Saramago
"As palavras são assim, disfarçam muito,vão-se juntando umas com as outras,
parece que não sabem aonde querem ir,
e de repente, por causa de duas ou três,
ou quatro que de repente saem,
simples em si mesmas,
um pronome pessoal, um advérbio,
um verbo, um adjetivo,
e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos,
a estalar a compostura dos sentimentos,
às vezes são os nervos que não podem aguentar mais,
suportaram muito, suportaram tudo,
era como se levassem uma armadura..."
in Ensaio Sobre a Cegueira
Ninguém me conhece... - Fernanda Young
Eu devo reconhecer que ninguém me conhece.Não realmente.
Os que mais sabem não sabem da metade.
Não deixo todos os segredos escaparem de mim, não mesmo.
Uma delicadeza com os outros, eu diria,
pois não quero assustar as pessoas com meu passado.
Em especial aquelas que continuaram gostando de mim após o pouco que souberam.
Mesmo porque aquela, que fez aquilo, nao está mais aqui.
Eu sou literalmente outra.
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