segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ano de pensar - Lya Luft


Mudança de ano, que, com o Natal,
para uns é celebração (estou desse lado), para outros, melancolia.
O que nos atrapalha é que alguém inventou que temos de tomar decisões
e fazer projetos para esse novo ano.
São quase sempre irreais, quase sempre não cumpridos.
Aí já nos frustramos neste mundo de tantas frustrações, em que a gente teria de ser bonito, saudável, competitivo e competente, bom de cama e ruim de mesa,
e uma lista interminável de "ter de".
Pois eu acho que 2010 pode ser o Ano de Pensar.
Bom projeto, boa intenção. Uma só, e já é bastante.
Pensar: coisa que tão pouco fazemos, embora seja o que nos distingue das outras feras.
Publiquei recentemente mais um livro para crianças (mas os adultos se divertem),
chamado Criança Pensa.
Com ele respondi, décadas depois, ao duplo lema dos adultos de um outro tempo,
de que criança não pensa, criança não tem querer.
Hoje tem querer até demais, mas isso é assunto para outra crônica.
E pensar, continua pensando,
apesar de todos os jogos eletrônicos e programas de computador imagináveis.
Se criança pensa – e pensa lindamente, segundo descobrimos e escrevemos, um de meus filhos, professor de filosofia, e eu –, adultos teriam de pensar ainda muito mais.
Porém a gente vai se enquadrando.
Família, escola, sociedade e cultura, seja o que isso for,
tornam-nos menos pensantes e menos questionadores.
Alguns escapam dessa mordaça e desabrocham.
Podem ser os menos confortáveis, mas são os que movem o mundo.
Pensar não é uma obrigação: é um direito, e deveria ser um prazer.
Naquela horinha no ônibus ou no carro, andando, nadando, comendo,
não fazendo nada – o que é um luxo, e nós, bobos, poucos saboreamos –,
nada melhor do que deixar tudo de lado e refletir,
ou deixar as ideias vagando numa atenção flutuante, como dizia Freud.
Largar mão, por alguns instantes, dos compromissos, do cansaço, da falta de tempo,
da dificuldade em ser feliz, da pouca harmonia consigo e com o mundo,
das tragédias, das decepções universais ou pessoais – e dar-se o prêmio de pensar.
Para algumas pessoas, parar para pensar não é desmontar.
E ficariam dispensados os dez ou doze ou três propósitos, as intenções fajutas eternamente repetidas – como as de emagrecer, romper ou melhorar o relacionamento, sair de casa, voltar a estudar, vencer na vida, ter filhos, mudar de emprego ou de parceiro, deixar de beber, de fumar, de se drogar com outras substâncias. A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar.
Em mim, na vida, nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só
– que seja realmente importante.
Pensar para ser uma pessoa mais decente;
pensar para amar mais e melhor, começando por mim mesmo;
pensar para votar com mais lucidez; pensar no que de verdade eu quero,
se é que eu quero alguma coisa – ou sou do tipo que se deixa levar por desânimo,
preguiça ou desencanto?Pensar simplesmente para criar meu mundo particular, não num ataque de loucura, mas de criatividade.
Pois o real não existe, existe o que vemos dele.
Dentro de certos limites, podemos, cada um de nós, inventar o nosso mundo:
sendo mais céticos ou mais otimistas, com aquele grãozinho de loucura necessário para que haja beleza e claridade e não vivamos numa caverna de trevas.
Basta ver como pensam as crianças, ainda livres das nossas inibições.
"Fadas e anjos existem, não é?", pergunta-me uma delas.
Respondo honestamente: "Para quem acredita, existem".
Acredito que, apesar de Copenhague, o mundo não vai torrar (as opiniões dos cientistas divergem), que vamos ter motivo para nos orgulhar de nossos países, que não vai mais haver tanta miséria e cinismo, que os colégios vão ensinar melhor e exigir mais em lugar de facilitar tão absurdamente e despejar tanta gente despreparada no mundo.
Sei que todos algum dia acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama.
Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada:
vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar.
Algumas se realizam. Criança sabe disso.

Feliz 2010.

A vontade de poder - Nietzsche

Nós só sentimos agrado para com os semelhantes - ou seja pelas imagens de nós próprios - quando sentimos comprazimento conosco. E quanto mais estamos contentes conosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós. É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento. Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais.
Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente.
Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então receberemos uma grande alegria: afinal, estamos na mesma situação.E, desta forma nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes.
Assim, nós deixamos de desprezar os outros; a aversão para com eles diminui, e dá-se a reaproximação.Eis porque, em virtude da doutrina do pecado e da condenação universal, o homem se aproxima de si mesmo. E até aqueles que detêm efetivamente o poder são de considerar, agora como dantes, sob este mesmo aspecto: é que, no fundo, são uns pobres homens.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ano Novo - Drummond

Quem teve essa ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a trabalhar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra adiante vai ser diferente.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Um novo tempo - Marcos Valle e Nelson Motta

Hoje, é um novo dia de um novo tempo que começou
Nesses novos dias, mais alegrias serão de todos é só querer
Todos os nossos sonhos serão verdade, o futuro já começou
Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier
A festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier...

Delicadeza - Faccioli

"Ao te conhecer comecei a sonhar
e pouco a pouco fui desaprendendo o ritmo sempre tão veloz
das coisas palpáveis. "

in "Trocando em miúdos"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Realidade - Fernanda Young

(...) O homem pode tudo, todas as pessoas podem fazer aquilo que bem quiserem.
Os limites, que impedem o homem de cometer erros,
são os mesmos que qualificam o que é errado, o que é impedido.
Como é o próprio homem quem cria essas leis,
pode derrubá-las com a facilidade de quem muda de idéia ou de roupa.
Não há regras naturais, há regras do jogo.
E o grande perigo que corre a humanidade
é perder o que resta do sentido maniqueísta de bem e mal.
Os instintos humanos são selvagens.
Uma vez despidos de limites morais, os homens se esfolarão uns aos outros.


in "vergonha dos Pés"

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Poema de Natal - Vinícius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Para refletir - Pablo Picasso


"Cansei de ser moderno,

quero ser terno..."

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Anotações sem papel - Carpinejar

A barba avança independente do que deixe para trás.
Eu tive várias vidas mas não terminei nenhuma delas.
O que sei serve apenas para me duvidar.
Temos pouco tempo para nos entender, não entendo como sobra tempo para nos explicar. Deveríamos dar ao amor a mesma religião do ódio. Quem odeia vai toda hora visitar um nome.
A primeira infância não é a primeira morte. Há datas que Deus nos paga a conta.
Deus não chega com a dor, Deus é quando falta ar para rir.
Escolher é desafiar a si mesmo a excluir justamente o que gostaríamos de dizer.
Escrevo como quem mexe na horta. As unhas não lavam as mãos.
A neblina é um rio que anda de barco. O mar sempre devolve o que não conseguiu engolir.
A terra tem mais estômago.
Sinto pena das árvores que são encontradas dias depois de sua morte.
Elas cheiram os frutos que não germinaram. Não isolo o que vivi do que imaginei ter vivido.
A poesia é a desistência de explicar. Eu dormi mais do que as palavras sonharam.
A chuva vem para lermos a casa.
Intimidade é conversar na mesa de café e apoiar o cotovelo em farelos de pão.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Nulidade - Pessoa

“(...) Ah, mas como eu desejaria lançar ao menos numa alma alguma coisa de veneno,
de desassossego e de inquietação.
Isso consolar-me-ia um pouco da nulidade de acção em que vivo (...)
Mas vibra alguma alma com as minhas palavras?
Ouve-as alguém que não só eu?”


do Livro do Desassossego

Confiança - Nietzshe

Fiquei magoado,
não por me teres mentido,
mas por não poder voltar a acreditar-te.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Desejo e Espelho - Martha Medeiros

Uma amiga me diz que não suporta mais se olhar no espelho. Ela está se achando gorda, feia, desprezível. Antigamente, eu talvez dissesse a ela que está na hora de fazer uma dieta e dar uma ajeitada no visual, mas hoje em dia aconselho outra coisa: está na hora, isso sim, de trocar de espelho.
Ela está apenas um pouco acima do peso ideal, e feia não é de jeito nenhum. É uma mulher inteligente, divertida, bacana. O problema é que está totalmente focada no trabalho, não tem se relacionado com ninguém. Não namora. Não quer nem pensar em seduzir ou ser seduzida, fechou pra balanço. É é justamente este o espelho que está lhe faltando pra ver-se com olhos mais generosos.
A gente se apaixona por si próprio à medida que nos enxergamos através dos olhos dos outros. Isolados numa ilha – ou trancados num apartamento – a tendência é não enxergarmos grandes atrativos em nós. Mesmo sabendo que somos pessoas legais, quem confirma isso?
Ok, com a auto-estima em dia, não dependemos tanto assim da apreciação alheia. Mas ninguém consegue manter-se em alta por muito tempo sem comprovar que é amado, gostado. Em suma, desejado.
Todo ser humano necessita despertar desejo. Quando as pessoas nos olham e não nos diferenciam de uma cadeira, a coisa vai mal. Isso acontece muito naquela instituição, como é mesmo o nome? Casamento. Os dois seguem se amando, mas já estão há tanto tempo juntos que não faz mais diferença se a mulher embarangou ou se o marido perdeu os dois dentes da frente: “amo você de qualquer jeito, bem”. Ama, sem dúvida. Mas não nos enxerga mais.
É aí que mora o perigo. Homens e mulheres precisam de um espelho que lhes diga constantemente o quanto são interessantes e atraentes. Se o espelho rachou em casa e não reflete mais nada, das duas uma: ou a gente se entrega ao desleixo, ou vai buscar reflexos de si mesmo em outro alguém.
Conheço garotas muito mais gordas que minha amiga, e menos bonitas e inteligentes do que ela, mas que não sentem vergonha do próprio corpo, seguem no jogo da vida, ganhando mais do que perdendo. São bem amadas por amigos e namorados, portanto a imagem que têm delas mesmas é menos rigorosa. E acabam se tornando belas de verdade.

Egoísmo - José Saramago

"... ainda está por nascer o primeiro ser humano
desprovido daquela segunda pele
a qual chamamos egoísmo,
bem mais dura que a outra,
que por qualquer coisa sangra."


in "Ensaio sobre a cegueira"

Insensatez e inconsequência - José Saramago

"... é muito possível que a insensatez e a inconsequência são para os novos um dever,
para os velhos são um direito respeitável"

in "A caverna"

Literatura - Mia Couto

"O fascínio pelas histórias resulta dessa absoluta necessidade de brincar.
Como todos os animais caçadores carecemos dessa aprendizagem ritualizada.
Como um gato perante o novelo, assim estamos ante o texto que nos encanta."

O tempo - Mia Couto

"Quero pôr os tempos em sua mansa ordem,
conforme esperas e sofrências.
Mas as lembranças desobedecem,
entre a vontade de serem nada
e o gosto de me roubarem do presente.
Acendo a estória,
me apago a mim. "

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Girar o vidro do baleiro - Carpinejar

Somos o que pedimos ou o que deixamos de pedir?
Não tinha coragem em minha infância de pedir o que desejava, eu desejava o que vinha.
Poderia roçar meus olhos nas vitrines das lojas, mas não apontava e dizia:
- Quero agora! Não me envergonhava dos meus sonhos, justo por isso.
Meus sonhos aumentavam os brinquedos que recebia.
Não ganhava mesada, tinha direito a ficar com as moedas quando a mãe trocava de bolsa. Repartia com os irmãos em chicletes e balas para rodar o vidro do armazém.
Meu carrossel era girar o baleiro. Um pouco de nostalgia não fere a barba.
Meu filho completa cinco anos. Eu perguntei e perguntei o que ele queria.
Como de costume, replicou com um abraço nas pernas:
- Qualquer coisa, qualquer coisa tá bom.
Qualquer coisa que eu desse para ele estaria realmente bom.
Não estava fingindo com "não precisava".
Ou escondendo o que pretendia. Clipes coloridos, uma lupa, um carimbo, e ele se veria espelhado. Fui com ele olhar uma bicicleta. Já que não consegui ensinar a minha mulher, ensinaria a ele. Revistamos o shopping, até que ele ficou em dúvida entre duas.
O cansaço me agitava: - Escolhe logo!
Ele me indagou, suave: - Levo a mais barata.
A noção de que ele deve ajudar a família é maior do que seu desejo de ter tudo em seu quarto. Outra história, agora com meus sobrinhos. Joãozinho, 4, e Nana, 7,
pediram presentes aos seus pais. Nana gritou: Playstation II!
Joãozinho, com olhar de bolinha de gude, recitou baixinho para seus pés:
- Sementes para plantar arvorezinhas na chácara.
Ofertas cumpridas, até hoje o Playstation está parado no armário e Joãozinho plantou melancia, laranjeira e o diabo de flor durante uma semana, com a alegria escandalosa da bananeira.
Somos o que pedimos ou o que deixamos de pedir?
No amor, a ambição destrói a possibilidade de criar com pouco.
O luxo é uma espécie de esmola.
Por mais que se dê, menos se está se oferecendo do corpo.
Dar é subtrair a invenção.
A imaginação prefere a modéstia.
Amor não é para ocupar o tempo, mas desocupar.
Comprei muitas vezes um pacote faraônico para não precisar brincar e estar junto.
Algo para me dispensar de participar, que me isente da proximidade.
A compulsão de surpreender com presentes e jóias esconde uma avareza por dentro.
De algum modo, estamos dispensando a comoção acompanhada de uma música
ou da própria voz.
Estamos nos substituindo.
Um afeto inesperado, uma palavra espichada como colar,
uma meninice na hora de acordar correspondem ao apelo.
Criar escolhas pode ser mais prazeroso do que escolher.
Penso isso ao encostar na árvore que Joãozinho plantou,
com meu filho andando de bicicleta pelas lombas,
num entardecer de ferrugem dos morros.
De repente, nem vou escrever esse texto.
Encosto nas árvores para meu corpo crescer.

Palavras - José Saramago

"A vida é assim,
está cheia de palavras que não valem a pena,
ou que valeram e já não valem,
cada uma que ainda formos dizendo tirará o lugar a outra mais merecedora,
que o seria não tanto por si mesma,
mas pelas conseqüências de tê-la dito."

in "A caverna"

O amor - Tolstoi

"O verdadeiro amor não está nas palavras mas nas ações,
e só o amor pode conferir-lhe a verdadeira sabedoria".

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Resolução de problemas - Mark Twain





“Quando o único instrumento que voce tem é um martelo,
todo problema que aparece voce trata como um prego.”