terça-feira, 19 de maio de 2009

O amor que a vida traz - Martha Medeiros

Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil.
O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico.
Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira já estaria mais do que bom.
Você quer um amor assim. É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.
O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos.
Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar.
O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja pra assistir em casa, no DVD.
E seria bom que gostasse dos seus amigos. E precisa ter um emprego seguro.
Bom humor, sim, bom humor não pode faltar. Não é querer demais, é?
Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da Playboy.
Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.
Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo.
Esse é o amor que lhe cabe. É seu.
Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser.
A entrega está feita, assine aqui, adeus.
E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos.
Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada o amor solicitado.
E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase.
Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige,
que não aceita as regras que você estipulou.
Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa,
mas a noite chega e esse amor perdura,
um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar
e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fôlego.
Um amor errado como aqueles que dizem
que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo,
e o certo era aquele outro que você havia encomendado,
mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se,
saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense,
esse amor que você desconfia que nem lhe pertence.
Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu.
Olhe pra você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu,
não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado,
o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet,
que esbarrou em você no elevador, o amor que era pra não vingar e virou compromisso,
olha você tendo que explicar o que não se explica,
você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica,
não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!
Aquele amor discretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém para o qual um amor discretinho costuma ser desprezado, repare em como a vida é astuciosa.
Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado.
Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns!
Aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.

Irradiar luz - Vincent Van Gogh

A diferença de uma pessoa antes
e depois de apaixonar-se
é a mesma entre uma lâmpada acesa
e outra apagada.

A lâmpada estava ali e era boa,
mas agora,

além de tudo,
irradia luz,

que é sua verdadeira função.

Tão bom viver assim - Mário Quintana

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O curso do amor - Gibran khalil Gibran

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Apesar do seu caminho ser duro e ingreme.
E quando suas asas vos envolverem, abraçai-o,
Apesar da espada escondida
entre suas penas poder ferir-vos,
E quando ele falar convosco, acreditai nele,
Apesar de sua voz poder esfacelar vossos sonhos
como vento norte arruína o jardim.
Pois mesmo quando o amor vos coroa, ele vos crucifica.
O amor não dá nada além de si mesmo e não toma nada além de si mesmo.
O amor não possui nem é possuído;
Pois o amor é suficiente ao amor.
Quando vós amais, não deveis dizer :
´Deus Está no meu coração´, mas sim
´Estou no coração de Deus´.
E não pensai que podeis dirigir o curso do amor,
pois o amor, se achar que mereceis,
dirige o vosso curso.

domingo, 17 de maio de 2009

Um homem precisa viajar - Amyr Klink

“Um homem precisa viajar.
Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV.
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.
Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto.
Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância
que nos faz ver o mundo como o imaginamos,
e não simplesmente como é ou pode ser.
Que nos faz professores e doutores do que não vimos,
quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

Entregar-se - Flora Figueiredo

Foto: meu filho Eduardo quando tinha 06 meses.

Só o que posso
é me entregar completamente
a toda causa que eu me dedicar,
a cada tempo que eu puder viver,
a cada amor que me fizer amar.

sábado, 16 de maio de 2009

O amor - Gibran Khalil Gibran

O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

Estrelas - Antoine de Saint-Exupéry

As pessoas têm estrelas que não são as mesmas.
Para uns, que viajam, as estrelas são guias.
Para outros, elas não passam de pequenas luzes.
Para outros, os sábios, são problemas.
Para o meu negociante, eram ouro.
Mas todas essas estrelas se calam.
Tu porém, terás estrelas como ninguém...
Quero dizer: quando olhares o céu de noite,
(porque habitarei uma delas e estarei rindo),
então será como se todas as estrelas te rissem!
E tu terás estrelas que sabem sorrir!
Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido.
Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá).
Terás vontade de rir comigo.
E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto...
E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu.
Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"

Não estás sozinho... - Ilona Bastos

Também eu - quem fui, já mais não sou!
Penso, e não penso, o que então pensei,
Sonho, e não sonho, o que em vão sonhei,
Que o desespero, tão perto de mim rondou…
Mas há momentos em que tudo muda:
Uma palavra, um gesto, uma afeição,
O que, não mostrado, logrou ver, a razão,
O que, não dito, meu coração desnuda.
E só por isso - até se os anos passam,
Se os apelos, desatendidos, murcham,
Se o desejo, insatisfeito, se aniquila,
Se mesmo a fé, perante o mal, vacila -,
Há esta réstia de esperança viva,
Há esta chama que brilha e alumia,
Há este trilho que guia o meu caminho,
Há esta luz que diz: não estás sozinho!

Almas e corpos - Manuel Bandeira


Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Não perdi nada - Miguel Sousa Tavares

"...e de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei,
todos os amigos que se afastaram,
todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada,
apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Não tenho tido tempo para romances - autor desconhecido

Não tenho tido tempo para romances.
Eles mal começam e eu já me canso.
Podem ser apresentados por amigos, ou escolhidos à esmo.
Eu ali, ele lá. Nós aqui.
Confesso que começo sempre cheia de expectativas. 'é legal', dizem uns.
'é a sua cara, você vai adorar', dizem outros. 'putaqueopariu, me achei', penso eu.
Logo me envolvo. Quando desenvolvo: já era.
Cansei. Não tenho tido paciência para romances.
Não tenho tido paciência para romances.
Na falta do meu tempo, ele me espera.
Mas eu não me desespero.
O próximo passo é quando eu começo a gostar.
Logo penso que vou largar amigos, festas e saídas,
para ficar trancada em casa com ele em um sábado qualquer.
Quando sinto falta, lembro das provas da faculdade
e que meu trabalho ocupa todas as minhas tardes.
Não tenho tido tempo para romances.
Sei que eles vão mudar a minha forma de ocupar as horas vagas e tirar meu sono.
Vou trocar meus filmes e músicas por ele.
Sei também que vai acabar.
E aí? como eu fico? sozinha, é claro.
Os romances não estão nem aí quando terminam.
Vão para longe e logo estão na mão de outra qualquer.
Em uma noite estão ao nosso lado, bem pertinho... nos vendo dormir.
Parecem nem ligar quando soltamos deles para tirar um cochilo,
ficam ali quietinhos esperando a gente.
Acordamos e eles estão ali, quase na mesma posição, só nos esperando.
Tão indefesos e submissos, mas vai acabar.
E toda essa paciência vai ser de outra pessoa.
E eu? Oras, eu
Não tenho tido paciência para romances.
Alguns deles são tão complicados, outros confusos e tantos outros tão cansativos.
Às vezes você tem dois romances por vez.
E não é infidelidade.
É para equilibrar: um simples, um difícil.
Ninguém quer complicações o tempo todo,
mas o que é fácil demais também cansa.
Eles até parecem entender, ou fingem não ver.
Alguns duram meses, outros eu termino em menos de uma semana.
Alguns eu acabo antes de chegar ao fim - mas, sim, assumo, às vezes,
sem ter o que fazer, acabo pegando novamente.
Rápido e prático, porém sem maiores objetivos.
Não tenho tido tempo para romances.
Não tenho tido paciência para romances.

Por isso só tenho lidos contos, crônicas e poesia.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Eu - Bob Marley

Eu gosto do impossível,
tenho medo do provável,
dou risada do ridículo
e choro porque tenho vontade,
mas nem sempre tenho motivo.
Tenho um sorriso confiante
que as vezes não demonstra
o tanto de insegurança por trás dele.
Sou inconstante e talvez imprevisível.
Não gosto de rotina.
Eu amo de verdade aqueles pra quem eu digo isso,
e me irrito de forma inexplicável
quando não botam fé nas minhas palavras.
Nem sempre coloco em prática aquilo que eu julgo certo.
São poucas as pessoas pra quem eu me explico."

Porque escrevemos - Rachel de Queiroz

Eu existi,
eu sou,
eu pensei,
eu senti,
e eu queria que você soubesse.
Creio que o impulso é esse.
É se fazer ver.
Eu existo,
olha pra mim,
escuta o que eu quero dizer:
tenho uma coisa pra te contar.

Creio que é por isso que a gente escreve.

Ame apenas - Madre Tereza de Calcutá

"Não ames pela beleza,
pois um dia ela acaba.
Não ames por admiração,
pois um dia irás te decepcionar.
Ame apenas,
pois o tempo nunca pode acabar
com um amor sem explicação."

É preciso saber viver - Roberto Carlos e Erasmo Carlos

Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver

Toda pedra no caminho
Você deve retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver ...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Para me sentir - Fernando Pessoa

Multipliquei-me para me sentir.
Para me sentir,
precisei sentir tudo.
Transbordei,
não fiz senão extravasar-me.
Despi-me,
entreguei-me.
E há em cada canto
da minha alma
um altar
a um deus diferente.

Palavras - José Saramago


As palavras proferidas pelo coração
não têm língua que as articule.
Retém-nas um nó na garganta
e só nos olhos é que se pode ler.

Eu, modo de usar - Martha Medeiros


Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir.
Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.
Acordo pela manhã com ótimo humor mas ... permita que eu escove os dentes primeiro.
Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza.
Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir,
mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo,
cultivando este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto,
um albergue da juventude.
Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.
Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sózinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada.
( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).
Seja mais forte que eu e menos altruísta!
Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços,
gosto de pernas e muito de pescoço.
Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade.
Leia, escolha seus próprios livros, releia-os.
Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida,
não de boate que isto é coisa de gente triste.
Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca ...
Goste de música e de sexo, goste de um esporte não muito banal.
Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia...
isso a gente vê depois ... se calhar ...
Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.
Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres,
tenha amigos e digam muitas bobagens juntos.
Não me conte seus segredos ... me faça massagem nas costas.
Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.
Me rapte!
Se nada disso funcionar ...

Experimente me amar !!!

A elegância do comportamento - Martha Medeiros

Existe uma coisa difícil de ser
ensinada e que, talvez por isso,
esteja cada vez mais rara:
A elegância do comportamento.
É um dom que vai muito além do
uso correto dos talheres e que
abrange bem mais do que dizer um
simples obrigado diante de uma gentileza.
É a elegância que nos acompanha
da primeira hora da manhã até a hora de dormir
e que se manifesta nas situações mais prosaicas,
quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto.
É uma elegância desobrigada.
É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam.
Nas pessoas que escutam mais do que falam.
E quando falam, passam longe da fofoca,
das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.
É possível detectá-la nas pessoas
que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas, por exemplo.
Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores
porque não sentem prazer em humilhar os outros.
É possível detectá-la em pessoas pontuais.
Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece,
é quem presenteia fora das datas festivas,
é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação,
não recomenda à secretária que pergunte antes
quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.
Oferecer flores é sempre elegante.
É elegante não ficar espaçoso demais.
É elegante você fazer algo por alguém,
e este alguém jamais saber o que você teve que se arrebentar para o fazer...
porém, é elegante reconhecer o esforço,
a amizade e as qualidades dos outros.
É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro.
É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.
É elegante retribuir carinho e solidariedade.
É elegante o silêncio, diante de uma rejeição...
Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo,
a estar nele de uma forma não arrogante.
É elegante a gentileza.
Atitudes gentis falam mais que mil imagens...
Abrir a porta para alguém é muito elegante...
Dar o lugar para alguém sentar...
é muito elegante...
Sorrir, sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma...
Oferecer ajuda... é muito elegante...
Olhar nos olhos, ao conversar é essencialmente elegante...
Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pelao bservação,
mas tentar imitá-la é improdutivo.
A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver,
que independe de status social:
Se os amigos não merecem uma certa cordialidade,
os desafetos é que não irão desfrutá-la.

Amo pessoas - Lady Foppa

Amo pessoas que acordam no meio da noite,
só para escutar o barulhinho da chuva no telhado…
Elas sabem ouvir o canto de Deus…
Amo pessoas que fazem do presente
um caminho para o futuro, com algumas trilhas secundárias
e até alguns atalhos…
Elas entendem de liberdade…
Amo pessoas que escrevem sua história sem ignorar
os borrões, fazendo deles uma lição de vida…
Elas jamais serão esquecidas.
Amo pessoas a quem posso chamar de amigos, que vêem
mais qualidades que defeitos em mim…
Elas enfeitam dia a dia o caminho que trilho…
Amo pessoas que sabem conviver, tolerando o que for
intolerável, encontrando uma justificativa
para resgatar a harmonia…
Elas entendem de perdão…
Amo pessoas de todas as idades, essas que não sabem a
idade que tem velhos, adolescentes, crianças…
Elas sabem se encaixar no tempo…
Amo pessoas que quando perdem a fé, engravidam o coração
e conseguem parir um novo, para ensinar e aprender…
Elas sabem que não se perde para si mesmo…
Amo pessoas que cantam no chuveiro,
que olham o espelho e se acham linda se sorriem
para o espelho refletir seu sorriso…
Elas com certeza receberão sorrisos, sem espelho…
Amo pessoas que valorizam riquezas só do espírito
e ignoram a miséria das almas…
Elas entendem que pobre á aquele que só possui
bens materiais.
Amo pessoas que cuidam da natureza, que espalham
sementes, plantam árvores e florescem o mundo…
Elas colherão frutos doces, independente das estações.
Amo pessoas de mãos generosas no doar,
no afeto e no oferecer…
Elas entendem que o presente fica em parte com quem recebe …fica mais com quem doa…
Amo pessoas que não tem medo de se arriscar,
de mudanças…de finais… nem recomeço.
Elas jamais dirão: Como seria, se eu tivesse tido coragem…
Amo pessoas que ficam olhando o horizonte de bobeira,
que deitam na grama para olhar nuvens passar
ou contar estrelas...
Elas conhecem e muito, de paz…
Amo pessoas que misturam pais, filhos, netos, primos, tios,
avós, que brigam, se desculpam e que não se separam…
Elas sabem a importância da família…
Amo pessoas que escutam passarinho quando canta
que olham o sol quando levanta
e que brincam de faz de conta com criança…
Elas sabem que ser feliz é simples…
Amo pessoas que iluminam o olhar diante da pessoa amada,
que beijam na boca e não estão nem ai para a platéia,
para julgamentos, ou ridículo…
Elas amam amar o amor…
Amo pessoas que não sabem odiar, que falam com anjos em
qualquer lugar, sabem que eles ouvem, tanto que me pediram
para escrever…
QUE OS ANJOS TAMBÉM AS AMAM!
AMO VOCÊ POR FAZER PARTE DA MINHA VIDA DE ALGUMA MANEIRA.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Peso - Clarice Lispector

"Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."

Lua adversa - Cecília Meirelles

Tenho fases,
como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!

Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua.
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
tenho fases, como a lua...
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Trecho de Clarice Lispector

"...Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos,
coubera arrancar de seu coração a flecha farpada.
De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura,
que eu nascera sem nojo da dor.
Para que te servem essas unhas longas?
Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais,
responde o lobo do homem.
Para que te serve essa cruel boca de fome?
Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais,
meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada.
Para que te servem essas mãos que ardem e prendem?
Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto
- uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras
antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir. "

(in Os desastres de Sofia)

Soneto 35 - William Shakespeare

Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;
Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;
Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço
Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.


(Os Sonetos de Shakespeare (The Sonnets) constituem uma coleção de 154 poemas sob a forma estrófica do soneto inglês que abordam uma galeria de temas tais como o amor, a beleza, a política e a morte)

Paz e Prosperidade - Madre Tereza de Calcutá

Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, lógicas e insensatas.
Perdoe-as assim mesmo.
Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.
Seja gentil assim mesmo.
Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns amigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.
Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo.
Seja honesto e franco assim mesmo.
O que você levou anos para construir alguém pode destruir de uma hora para outra.
Construa assim mesmo.
Se você tem paz e é feliz, as pessoas podem sentir inveja.
Seja feliz assim mesmo.
O bem que você faz hoje pode ser esquecido amanhã.
Faça o bem assim mesmo.
Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode não ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.
Perceba que, ao final das contas, é entre você e Deus.
Nunca foi entre você e as outras pessoas.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Despedida - Martha Medeiros

Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina e a gente,
seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro,
com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva,
já que ainda estamos tão embrulhados na dor
que não conseguimos ver luz no fim do túnel.
A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.
A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços,
a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida:
a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre,
sem sentimento especial por aquela pessoa.
Dói também…
Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir,
lembrança de uma época bonita que foi vivida…
Passou a ser um bem de valor inestimável,
é uma sensação à qual a gente se apega.
Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis,
mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente,
e que só com muito esforço é possível alforriar.
É uma dor mais amena, quase imperceptível.
Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’propriamente dita.
É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra.
A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais,
mas interessa o amor que sentíamos por ela,
aquele amor que nos justificava como seres humanos,
que nos colocava dentro das estatísticas:
“Eu amo, logo existo”.
Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou, externamente,
sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo."

Neste minuto... - Caio F. Abreu

'Estou te querendo muito bem neste minuto.
Tinha vontade que você estivesse aqui
e eu pudesse te mostrar muitas coisas,
grandes,
pequenas,
e sem nenhuma importância,
algumas.'

Não quero pensar... - Caio F. Abreu

'Eu não quero pensar no que virá:
quero pensar no que é agora.
No que está sendo.
Pensar no que ainda não veio é fugir,
buscar apoio em coisas externas a mim,
de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço.
Pensar no que está sendo,
ou antes, não.
Pensar é ainda fuga:
aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar.
Entrar nela significa viver '

sábado, 9 de maio de 2009

Dizendo adeus - Lya Luft

Estou sempre dando adeus:
também ao desencontro e ao desencanto.
Estou sempre me despedindo do ponto de partida que me lança de si,
do porto de chegada que nunca é aqui.
Estou sempre dizendo adeus:
até a Deus, para o reencontrar em outra esquina de adeuses.
Estarei sempre de partida,
até o momento de sermos deuses:
quando me fizeres dar adeus à solidão e à sombra.

Isto é tudo - Hermann Hesse

“Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo.
Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens,
além daquele que há em sua própria alma.
Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave.
Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isto é tudo."

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Escolhas - Richard Bach

"Dispomos de todas as possibilidades,
da mais absoluta liberdade de escolha.
Como num livro,
onde cada letra permanece para sempre na página,
a nossa consciência tem o direito de decidir o que quer ler
e o que prefere deixar de parte."

Pingado - Fabrício Carpinejar

Eu tomo café frio. Acho que deixo o café esfriar de propósito. Pelo esforço de tomá-lo. Há uma cota de sacrifício em cada gesto irrelevante.
Pego o café antes da cafeteira terminar de cuspir água. Queimo as mãos nas bordas, o caule da porcelana está boiando na fumaça. Momento perfeito para empunhar a xícara e degustar o charme do gole soprado. Ao invés disso, vou fazer novas tarefas. E o primeiro sorvo vem morno. Sou ansioso para me adiar.
Não adotei o pingado, lamento minha deserção. É delirante o dom de misturar certinho o volume, definir o que vai por cima. Uma autoridade maior do que enumerar as colherinhas do açúcar.
O amor não é expresso, é café-com-leite. Meio a meio, pouco a meio. Alguns preferem o leite; outros, o café. Por isso, combinam os dois.
Não sei se me faço entender: eu gostaria mais do café se viesse acompanhado do leite que não gosto.
Ninguém ama por inteiro. Eu amo e sou amado por fragmentos. No início da paixão, mostramos a região predileta: os dons e os dotes. Nossa parte benigna. Fácil decorar e pôr em prática.
É mais simples falar eu te amo quando não se ama. Quando vou falar eu te amo amando, o som não é natural. A boca pesa, a mão lateja, acredita-se em toda vogal. Nossa vida vai junto com os lábios de inverno.
Entendo agora: uma verdade que não se cansa é mentira. Portanto, amo de verdade e amo de mentira, para não deixar nada sem amar.
Não amo por inteiro. Amo por fases. Por dias. Por horas. Há incomodações, ódios e resmungos nos intervalos. Nivelar o amor é aniquilá-lo. É não admitir que a mulher não é o que espero, nem o que ela espera. E passar a desconfiar que não amo por aquilo que não preciso mesmo amar. Procuro no amor a cegueira da paixão e os olhos já estão abertos nos dedos. Amar é suportar também não amar quem mais se ama. Lidar com o que nos irrita e não explodir. Dar a trégua para a paciência virar confiança.
Não se sentir perseguido na hora da crítica. Não cortar a fala pelo passado. Não ameaçar com o fim, não interromper com chantagens, não sobrepor dissidências com suspeitas. Permitir que o rio mergulhe seus pés em nosso corpo.
O que julgava ser uma virtude - minha disposição em ajudar - pode ser compreendida como arrogância. Como se fosse cobrar um favor mais adiante. Ajuda só é ajuda no instante em que ela é esquecida. Tenho que ser suficientemente discreto para não voltar ao assunto. Nunca mais.
Meus avós maternos tomavam café-com-leite. Tão diferentes ao dormir, tão iguais ao acordar. O avô ainda separava abacates de seu quintal para a vitamina da tarde. Explicava, orgulhoso com o sotaque de cozinha: "o abacate é uma das raras frutas que amadurecem fora do pé". Depende de uma semana longe da árvore. Como o amor. Inclusive quando não se ama.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Para ti - Mia Couto

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo(...)

Saudade - Mia Couto

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrançado teu vestido
caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas
Seja eu de novo a tua sombra,
teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
euque já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mimos animais que atormentam o meu sono...

Meu Deus, me dê coragem - Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.

A fome do primeiro grito - Hilda Hist

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim,
como se tu me olhasses.
E era como se a água desejasse.
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo.
Entendo que sou terra.
Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu.
Pastor e nauta
Olha-me de novo.
Com menos altivez
e mais atento.

Só - Edgar Allan Poe

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.


Tradução de Oscar Mendes

terça-feira, 5 de maio de 2009

Um sonho dentro de um sonho - Edgar Allan Poe

Tome este beijo sobre a têmpora
e, partindo de ti agora,
muito a dizer nesta franca hora
Você não está errado, quem diria
que meus sonhos têm sido o dia;
Ainda se a esperança fosse um açoite
em um dia, ou numa noite,
numa visão, ou em ninguém
É isso então o que está aquém?
Tudo o que vejo, tudo o que suponho
É só um sonho dentro de um sonho.
As ondas quebram e fico ao meio
de uma praia atormentada
e eu seguro em minhas mãos
uns grãos de areia dourada
-Quão poucos! E como se vão
Pelos meus dedos para o nada,
enquanto eu choro, enquanto eu choro!
Ó Deus! Eu Vos imploro:Não posso mantê-los em minha teia?
Ó Deus! Posso eu proteger
das duras ondas um grão de areia?
Será que tudo o que vejo e suponho
É só um sonho dentro de um sonho?

Tradução: Leonardo Dias

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Ter ou não ter namorado? - Carlos Drummond de Andrade

Namorado: Ter ou não ter, é uma questão.
Quem nao tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namoradode verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixao é fácil.
Mas namorado, mesmo, é muito difícil.
Namorado nao precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção.
A proteção dele nao precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem nao tem namorado não é quem não tem um amor:
é quem não sabe o gosto de namorar.
Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas,
medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade.
Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente;
de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar;
de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada;
de ânsia de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical na Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado.
Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigaçoes; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho.
Nao tem namorado quem nao fala sozinho, nao ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos,
ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança.
De alma escovada e coraçao estouvado, saia do quintal desi mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada.
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda nao enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça.

Soneto da Fidelidade - Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procureAdicionar imagem
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

domingo, 3 de maio de 2009

O que fazer ? - Clarice Lispector

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada.
A maioria das pessoas estão mortas e não sabem,
ou estão vivas com charlatanismo.
E o amor, em vez de dar, exige.
E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisade que eles precisam.
Mentir dá remorso.
E não mentir é um dom que o mundo não merece…”

O livro - Martha Medeiros


O Livro não é um produto descartável: usou joga fora.
Nunca fiz isso nem com o namorado, imagine com um livro que é muito mais útil.
Tem gente que diz que uma casa sem cortina é uma casa nua.
Eu penso o mesmo de uma casa sem livros.
É como se fosse habitada por pessoas sem imaginação,
que não tem histórias pra contar.

sábado, 2 de maio de 2009

Andanças - Rubem Braga


“Em minhas andanças,

eu quase nunca soube se

estava fugindo de alguma coisa

ou caçando outra”.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Se iludindo menos e vivendo mais - Carlos Drummond de Andrade


Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado
e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao ladodo nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com umamigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como umverso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que,
esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.

O sofrimento é opcional…

Delírios - Clarice Lispector

Gosto dos venenos os mais lentos!
As bebidas as mais fortes!
Dos cafés mais amargos!
E os DELÍRIOS mais loucos.
Voce pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
E daí eu adoro voar!!!

Abrigo - Mário Quintana

Amar: Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer…
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei…
O amor é quando a gente mora um no outro.

Antes de amar-te - Pablo Neruda

Antes de amar-te, amor,
nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Siga em frente - Charles Bukowski

Se vai tentar siga em frente.
Senão, nem começe!
Isso pode significar perder namoradas esposas, família, trabalho…e talvez a cabeça.
Pode significar ficar sem comer por dias.
Pode significar congelar em um parque.
Pode significar cadeia.
Pode significar caçoadas, desolação…
A desolação é o presente…
O resto é uma prova de sua paciência, do quanto realmente quis fazer
E farei, apesar do menosprezo.
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.
Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este.
Ficará sozinho com os Deuses.
E as noites serão quentes.
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.

Cuidado comigo - Caio F Abreu

‘Ria de mim mas
estou aqui parada,
bêbada, pateta e ridícula,
só porque no meio
desse lixo todo procuro
o verdadeiro amor.
Cuidado comigo:
um dia encontro.'