Mostrando postagens com marcador Ferreira Gullar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ferreira Gullar. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Traduzir-se - Ferreira Gullar


"Uma parte de mim
É todo mundo:
Outra parte é ninguém:
Fundo sem fundo.

Uma parte de mim:
É multidão:
Outra parte estranheza
E solidão.

Uma parte de mim
Pesa, pondera:
Outra parte
Delira.

Uma parte de mim:
Almoça e janta:
Outra parte
Se espanta.

Uma parte de mim
É permanente:
Outra parte
Se sabe de repente.

Uma parte de mim
É só vertigem:
Outra parte,
Linguagem.

Traduzir uma parte
Na outra parte
-Que é uma questão
De vida ou morte-
Será arte?"


In "Os melhores poemas de Ferreira Gullar". p.144-5

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Um instante - Ferreira Gullar


Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

sábado, 26 de junho de 2010

Nome - Ferreira Gullar

E depois de tanto que importa um nome?
Te cubro de flor, menina,
e te dou todos os nomes do mundo:
te chamo aurora
te chamo água
te descubro nas pedras coloridas
nas artistas de cinema
nas aparições do sonho...


in “Poema Sujo”

terça-feira, 3 de novembro de 2009

No corpo - Ferreia Gullar

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares
O sonho na boca,

o incêndio na cama,
o apelo da noite.
Agora são apenas esta contração
(este clarão)
do maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.