terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Livre arbítrio - Gasset

Negrito

"Eu sou eu e minha circunstância.

Se não salvo a ela, não salvo a mim”.

O silêncio, o tempo... - Antoine Saint-Exupéry

Nunca dês ouvidos àqueles que, no desejo de te servir,
te aconselham a renunciar a uma das tuas aspirações.
Tu bem sabes qual é a tua vocação, pois a sentes exercer pressão sobre ti.
E, se a atraiçoas, é a ti que te desfiguras.
Mas fica sabendo que a tua verdade se fará lentamente,
pois ela é nascimento de árvore e não descoberta de uma fórmula.
O tempo é que desempenha papel mais importante,
porque se trata de te tornares outro e de subires uma montanha difícil.
Porque o ser novo, que é unidade libertada no meio da confusão das coisas,
não se te impõe como a solução de um enigma,
mas como um apaziguamento de litígios e uma cura de ferimentos.
E só virás a conhecer o seu poder, uma vez que ele se tiver realizado.
Nada me pareceu tão útil ao homem como o silêncio e a lentidão.
Por isso os tenho honrado sempre como deuses por demais esquecidos.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Temperamento - Eleanor Roosevelt

"A mulher é como um saquinho de chá.
Você nunca sabe se ela é forte até que entre em água quente".

O Mapa - Mário Quintana


Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

sábado, 18 de dezembro de 2010

Amigos verdadeiros - Antoine Saint-Exupéry

Nada, jamais, na verdade, substituirá o companheiro perdido.
Ninguém pode criar velhos companheiros.
Nada vale o tesouro de tantas recordações comuns,
de tantas horas más vividas juntos, de tantas desavenças,
de tantas reconciliações, de tantos impulsos afetivos.
Não se reconstroem essas amizades.
Seria inútil plantar um carvalho na esperança de ter,
em breve, o abrigo em suas folhas.
Assim vai a vida.
A principio, enriquecemos;
plantamos durante anos,
mas os anos chegam em que o tempo destrói esse trabalho,
arranca essas arvores.
Um a um, os companheiros nos retiram sua sombra.
E aos nossos lutos mistura-se então
a mágoa secreta de envelhecer.


Dificuldades - Nicholas Sparks

Segundo meu pai, quando você está em dificuldades,
olhe as pessoas ao redor e verá que todas estão sofrendo por algo,
e para cada uma delas,
a situação parece tão difícil como o que você está passando."


in "Querido John"

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Traduzir-se - Ferreira Gullar


"Uma parte de mim
É todo mundo:
Outra parte é ninguém:
Fundo sem fundo.

Uma parte de mim:
É multidão:
Outra parte estranheza
E solidão.

Uma parte de mim
Pesa, pondera:
Outra parte
Delira.

Uma parte de mim:
Almoça e janta:
Outra parte
Se espanta.

Uma parte de mim
É permanente:
Outra parte
Se sabe de repente.

Uma parte de mim
É só vertigem:
Outra parte,
Linguagem.

Traduzir uma parte
Na outra parte
-Que é uma questão
De vida ou morte-
Será arte?"


In "Os melhores poemas de Ferreira Gullar". p.144-5

Dor - Adélia Prado

" Dor não tem nada a ver com amargura.
Acho que tudo que acontece
é feito pra gente aprender cada vez mais,
é pra ensinar a gente a viver.
Desdobrável.
Cada dia mais rica de humanidade."



domingo, 12 de dezembro de 2010

Interior - Clarice Lispector

"A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível,
extremamente interior
e não tem uma só palavra que a signifique"

in "A Hora da Estrela" pág.11

sábado, 11 de dezembro de 2010

Cansaço - Álvaro de Campos

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
- Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser... E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Tempo - Mia Couto



"O tempo é o lenço de todas as lágrimas"

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Referências - Antoine Saint-Exupéry


Vês, lá longe, o campo de trigo?
Eu não como pão. O trigo pra mim é inútil.
Os campos de trigo não me lembram coisa alguma.
E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro.
Então será maravilhoso quando me tiverdes cativado.
O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti.
E eu amarei o barulho do vento no trigo...

Fidelidade - Antoine Saint-Exupéry


Fica sabendo que não é em vão que eu amo o que se acha ameaçado.
Não é de deplorar que as coisas preciosas o estejam.
Eu encontro precisamente nisso uma condição da sua qualidade.
Eu amo o amigo fiel nas tentações.
Se não houvesse tentação, não haveria fidelidade, não teria eu amigos.
E eu aceito que alguns caiam, para dar valor aos outros.

O Trabalho - Roosevelt

“De longe, o maior prêmio que a vida oferece
é a chance de trabalhar muito
e se dedicar a algo que valha a pena”.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Interpretação de Dezembro - C Drummond de Andrade


É talvez o menino
suspenso na memória.
Duas velas acesas
no fundo do quarto.
E o rosto judaico
na estampa, talvez.

O cheiro do fogão
vário a cada panela.
São pés caminhando
na neve, no sertão
ou na imaginação.

A boneca partida
antes de brincada,
também uma roda
rodando no jardim,
e o trem de ferro
passando sobre mim
tão leve: não me esmaga,
antes me recorda.

É a carta escrita
com letras difíceis,
posta num correio
sem selo e censura.

A janela aberta
onde se debruçam
olhos caminhantes,
olhos que te pedem
e não sabes dar.

O velho dormindo
na cadeira imprópria.

O jornal rasgado.
O cão farejando.
A barata andando.
o bolo cheirando.
O vento soprando.
E o relógio inerte.

O cântico de missa
mais do que abafado,
numa rua branca
o vestido branco
revoando ao frio.
O doce escondido,
o livro proibido,
o banho frustrado,
o sonho do baile
sobre chão de água
ou aquela viagem
ao sem-fim do tempo
lá onde não chega
a lei dos mais velhos.

É o isolamento
em frente às castanhas,
a zona de pasmo
na bola de som,
a mancha de vinho
na toalha bêbeda,
desgosto de quinhentas
bocas engolindo
falsos caramelos
ainda orvalhados
do pranto das ruas.

A cabana oca
na terra sem música.
O silêncio interessado
no país das formigas.

Sono de lagartos
que não ouvem o sino.
Conversa de peixes
sobre coisas líquidas.
São casos de aranha
em luta com mosquitos.
Manchas na madeira
cortada e apodrecida.
Usura da pedra
em lento solilóquio.
A mina de mica
e esse caramujo.
A noite natural
e não encantada.
Algo irredutível
ao sopro das lendas
mas incorporado
ao coração do mito.

É o menino em nós
ou fora de nós
recolhendo o mito.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Escrevo - Clarice Lispector


"Escrevo porque sou uma desesperada e estou cansada,
não suporto mais a rotina de me ser.
Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero.
E agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui"


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Luz - Gonzaguinha


"Nunca se entregue.

Nasça sempre com as manhãs.


Deixe a luz do céu brilhar na luz do seu olhar."

Possível e impossível - Pearl S Buck


"Tudo é possível até que se prove impossível.
E ainda assim o impossível pode sê-lo
apenas por um momento."

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Lembranças - Mia Couto


"Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem,
conforme esperas e sofrências.
Mas as lembranças desobedecem,
entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente.
Acendo a estória, me apago a mim. "

Vende-se um passado - Myriam Campello


Volto ao lar como parti, a dor intocada.
E onde é o lar?!(...)
O lar é a pessoa que amamos.
Quando esta é intragada pela escuridão, a orfandade se instala.
Para onde ir?!?(...)
Destrói-se o passado com um peteleco -
basta a porta entre duas pessoas fechar-se com um clique duro.
Mas esquecê-lo é outra história.
Vende-se um passado ainda em bom estado de conservação,
recheado de esplêndidas lembranças.

in "Como Esquecer" pág. 11